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quarta-feira, 25 de maio de 2011

ESPECIAL RICARDO GONDIM: O PASTOR HEREGE

MORDAÇA GAY 
OU MORDAÇA EVANGÉLICA?
Quem realmente quer amordaçar a opinião alheia?




No dia 27 de abril de 2011 às 8:48h o Pastor Ricardo Gondim deu uma polêmica entrevista a Carta Capital, onde defendeu o direito civil do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Ricardo Gondim Rodrigues é teólogo brasileiro, presidente nacional da Assembléia de Deus Betesda, presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos, conferencista. Tem programa de rádio e é colunista de vários veículos de comunicação. É autor premiado de vários livros e artigos polêmicos. Nasceu católico de uma família que tinha padres e freiras na árvore genealogica e, contrariando as perspectivas familiares, ingressou na Igreja Presbiteriana, onde participou efetivamente e liderou a União de Mocidade. Por influência de seu melhor amigo, presidente da Aliança Bíblica Universitária, ingressou na Assembleia de Deus, onde percebera que a mesma estava engessada e sobrava legalismo, passando a denunciar, segundo o próprio, a gerontocracia assembleiana. Afirma que rompeu com a maior denominação pentecostal do Brasil e passou a caminhar com a Betesda. (Fonte: Wikepédia)


Após a repercursão da entrevista, Gondim foi extremamente perseguido nas redes sociais por grupos religiosos fundamentalistas e homofóbicos e foi "convidado" a se retirar da revista Ultimato a qual era colunista a 20 anos. Ricardo Gondim voltou a ser entrevistado pela Carta Capital após sua demissão e escreveu uma carta aberta sobre o caso, aos quais reproduzo em seguida:


Primeira entrevista (no dia 27/04/2011):




“Deus nos livre de um Brasil evangélico.” Quem afirma é um pastor, o cearense Ricardo Gondim. Segundo ele, o movimento neopentecostal se expande com um projeto de poder e imposição de valores, mas em seu crescimento estão as raízes da própria decadência. Os evangélicos, diz Gondim, absorvem cada vez mais elementos do perfil religioso típico dos brasileiros, embora tendam a recrudescer em questões como o aborto e os direitos homossexuais. Aos 57 anos, pastor há 34, Gondim é líder da Igreja Betesda e mestre em teologia pela Universidade Metodista. E tornou-se um dos mais populares críticos do mainstream evangélico, o que o transformou em alvo. “Sou o herege da vez”,  diz na entrevista a seguir.


CartaCapitalOs evangélicos tiveram papel importante nas últimas eleições. O Brasil está se tornando um país mais influenciável pelo discurso desse movimento?
Ricardo Gondim: Sim, mesmo porque, é notório o crescimento do número de evangélicos. Mas é importante fazer uma ponderação qualitativa. Quanto mais cresce, mais o movimento evangélico também se deixa influenciar. O rigor doutrinário e os valores típicos dos pequenos grupos se dispersam, e os evangélicos ficam mais próximos do perfil religioso típico do brasileiro.


CC: Como o senhor define esse perfil?
RG: Extremamente eclético e ecumênico. Pela primeira vez, temos evangélicos que pertencem também a comunidades católicas ou espíritas. Já se fala em um “evangelicalismo popular”, nos moldes do catolicismo popular, e em evangélicos não praticantes, o que não existia até pouco tempo atrás. O movimento cresce, mas perde força. E por isso tem de eleger alguns temas que lhe assegurem uma identidade. Nos Estados Unidos, a igreja se apega a três assuntos: aborto, homossexualidade e a influência islâmica no mundo. No Brasil, não é diferente. Existe um conservadorismo extremo nessas áreas, mas um relaxamento em outras. Há aberrações éticas enormes.
CC: O senhor escreveu um artigo intitulado “Deus nos Livre de um Brasil Evangélico”. Por que um pastor evangélico afirma isso?
RG: Porque esse projeto impõe não só a espiritualidade, mas toda a cultura, estética e cosmovisão do mundo evangélico, o que não é de nenhum modo desejável. Seria a talebanização do Brasil. Precisamos da diversidade cultural e religiosa. O movimento evangélico se expande com a proposta de ser a maioria, para poder cada vez mais definir o rumo das eleições e, quem sabe, escolher o presidente da República. Isso fica muito claro no projeto da Igreja Universal. O objetivo de ter o pastor no Congresso, nas instâncias de poder, é o de facilitar a expansão da igreja. E, nesse sentido, o movimento é maquiavélico. Se é para salvar o Brasil da perdição, os fins justificam os meios.
CC: O movimento americano é a grande inspiração para os evangélicos no Brasil?
RG: O movimento brasileiro é filho direto do fundamentalismo norte-americano. Os Estados Unidos exportam seu american way oflife de várias maneiras, e a igreja evangélica é uma das principais. As lideranças daqui leem basicamente os autores norte-americanos e neles buscam toda a sua espiritualidade, teologia e normatização comportamental. A igreja americana é pragmática, gerencial, o que é muito próprio daquela cultura. Funciona como uma agência prestadora de serviços religiosos, de cura, libertação, prosperidade financeira. Em um país como o Brasil, onde quase todos nascem católicos, a igreja evangélica precisa ser extremamente ágil, pragmática e oferecer resultados para se impor. É uma lógica individualista e antiética. Um ensino muito comum nas igrejas é a de que Deus abre portas de emprego para os fiéis. Eu ensino minha comunidade a se desvincular dessa linguagem. Nós nos revoltamos quando ouvimos que algum político abriu uma porta para o apadrinhado. Por que seria diferente com Deus?
CC: O senhor afirma que a igreja evangélica brasileira está em decadência, mas o movimento continua a crescer.
RG: Uma igreja que, para se sustentar, precisa de campanhas cada vez mais mirabolantes, um discurso cada vez mais histriônico e promessas cada vez mais absurdas está em decadência. Se para ter a sua adesão eu preciso apelar a valores cada vez mais primitivos e sensoriais e produzir o medo do mundo mágico, transcendental, então a minha mensagem está fragilizada.
CC: Pode-se dizer o mesmo do movimento norte-americano?
RG: Muitos dizem que sim, apesar dos números. Há um entusiasmo crescente dos mesmos, mas uma rejeição cada vez maior dos que estão de fora. Hoje, nos Estados Unidos, uma pessoa que não tenha sido criada no meio e que tenha um mínimo de senso crítico nunca vai se aproximar dessa igreja, associada ao Bush, à intolerância em todos os sentidos, ao Tea Party, à guerra.
CC: O senhor é a favor da união civil entre homossexuais?
RG: Sou a favor. O Brasil é um país laico. Minhas convicções de fé não podem influenciar, tampouco atropelar o direito de outros. Temos de respeitar as necessidades e aspirações que surgem a partir de outra realidade social. A comunidade gay aspira por relacionamentos juridicamente estáveis. A nação tem de considerar essa demanda. E a igreja deve entender que nem todas as relações homossensuais são promíscuas. Tenho minhas posições contra a promiscuidade, que considero ruim para as relações humanas, mas isso não tem uma relação estreita com a homossexualidade ou heterossexualidade.
CC: O senhor enfrenta muita oposição de seus pares?
RG:  Muita! Fui eleito o herege da vez. Entre outras coisas, porque advogo a tese de que a teologia de um Deus títere, controlador da história, não cabe mais. Pode ter cabido na era medieval, mas não hoje. O Deus em que creio não controla, mas ama. É incompatível a existência de um Deus controlador com a liberdade humana. Se Deus é bom e onipotente, e coisas ruins acontecem, então há algo errado com esse pressuposto. Minha resposta é que Deus não está no controle. A favela, o córrego poluído, a tragédia, a guerra, não têm nada a ver com Deus. Concordo muito com Simone Weil, uma judia convertida ao catolicismo durante a Segunda Guerra Mundial, quando diz que o mundo só é possível pela ausência de Deus. Vivemos como se Deus não existisse, porque só assim nos tornamos cidadãos responsáveis, nos humanizamos, lutamos pela vida, pelo bem. A visão de Deus como um pai todo-poderoso, que vai me proteger, poupar, socorrer e abrir portas é infantilizadora da vida.
CC: Mas os movimentos cristãos foram sempre na direção oposta.
RG: Não necessariamente. Para alguns autores, a decadência do protestantismo na Europa não é, verdadeiramente, uma decadência, mas o cumprimento de seus objetivos: igrejas vazias e cidadãos cada vez mais cidadãos, mais preocupados com a questão dos direitos humanos, do bom trato da vida e do meio ambiente.


Logo após essa primeira entrevista e sua demissão, Gondim voltou a falar a carta capital em 23 de maio de 2011 às 17:43h:




Como nos tempos da Inquisição

Após defender o Estado laico e o reconhecimento jurídico da união homoafetiva em entrevista a CartaCapital no fim de abril, o pastor Ricardo Gondim, líder da Igreja Betesda e mestre em teologia pela Universidade Metodista, virou alvo de ferrenhos ataques de grupos evangélicos na internet. Um fiel chegou a dizer, pelo Twitter, que se pudesse “arrancaria a cabeça” do pastor herege. “É como se vivêssemos nos tempos da Inquisição”, comenta Gondim, que já previa uma reação de setores do mainstream evangélico, os movimentos neopentecostais com forte apelo midiático. Surpreendeu-se, no entanto, ao ser informado que, graças às declarações feitas à revista, não poderia mais escrever para uma publicação evangélica na qual é colunista há 20 anos.

“Fui devidamente alertado pelo reverendo Elben Lenz Cesar de que meus posicionamentos expostos para a CartaCapital trariam ainda maior tensão para a revista Ultimato”, escreveu Gondim em seu site pessoal, na sexta-feira 20. “Respeito o corpo editorial da Ultimato por não se sentir confortável com a minha posição sobre os direitos civis dos homossexuais. Todavia, reafirmo minhas palavras: em um Estado laico, a lei não pode marginalizar, excluir ou distinguir como devassos, promíscuos ou pecadores, homens e mulheres que se declaram homoafetivos e buscam constituir relacionamentos estáveis. Minhas convicções teológicas ou pessoais não podem intervir no ordenamento das leis.”

Por telefone, o pastor explicou as razões expostas pela revista evangélica para “descontinuar” a sua coluna, falou sobre as ofensas que sofreu na internet e não demonstrou arrependimento por ter falado à CartaCapital em abril. “A entrevista foi excelente para distinguir algumas coisas. Nem todos os evangélicos pensam como esses grupos midiáticos que confundem preceitos religiosos com ordenamento jurídico e querem impor sua vontade a todos.”

CartaCapital: Qual foi a justificativa dada pela revista Ultimato para descontinuar a sua coluna na publicação?
Ricardo Gondim: Eu escrevi para a Ultimato por 20 anos. Trata-se de uma publicação evangélica bimensal, na qual eu tinha total liberdade para escrever sobre o que quisesse. Não falava apenas da doutrina, mas de muitos assuntos relacionados ao cotidiano evangélico. E nunca sofri qualquer tipo de censura. Mas, agora, eles entenderam que as minhas declarações a CartaCapital eram incompatíveis com o que a Ultimato defende e expuseram três argumentos para justificar a decisão. Eu não concordo com essas teses e, para dar uma satisfação aos leitores, publiquei uma carta de despedida no meu site (www.ricardogondim.com.br).
CC: A defesa dos direitos civis de homossexuais foi um dos aspectos criticados pelo corpo editorial da revista?
RG
: Sim. Eles entendem que o apoio à união civil de homossexuais abriria um precedente dentro das igrejas evangélicas para a legitimação do ato em si, a homossexualidade. Tentei explicar que uma coisa é teologia, outra é o ordenamento das leis. Num Estado é laico, não podemos impor preceitos religiosos à toda a sociedade. Uma coisa não transborda para a outra. Dei como exemplo o fato de a Igreja católica viver muito bem em países que reconhecem juridicamente o divórcio, embora ela condene a prática e se recuse a casar pessoas divorciadas. Eu não fiz uma defesa da homossexualidade, e sim dos direitos dos homossexuais. O direito deve premiar a todos. Num Estado democrático, até mesmo os assassinos têm direitos. Não é porque eles cometeram um crime que possam ser torturados ou agredidos, por exemplo. As igrejas podem ter uma posição contrária à homossexualidade, mas não podem confundir seus preceitos com o ordenamento jurídico do país ou tentar impor sua vontade. Muitos disseram que o Supremo Tribunal Federal tripudiou sobre as igrejas evangélicas ao reconhecer a união estável homoafetiva. Nada disso, o STF estava apenas garantindo os direitos de um segmento da sociedade. Essa é sua função.
CC: Quais foram os outros aspectos criticados?
RG:
 Eles também criticaram uma passagem da entrevista na qual eu contesto a visão de um Deus títere, controlador da história e da liberdade humana, como se tudo que acontecesse de bom ou ruim fosse por vontade divina e ou tivesse algum significado maior. E apresentaram um argumento risível: o de que a minha tese coloca em xeque a ideia de um Deus soberano. Claro que sim! Deus soberano é uma visão construída na Idade Média, e serviu muito aos interesses de nobres e pessoas do clero que, para justificar seu poder, se colocavam como representantes da vontade divina na terra. Só que essa visão é incompatível com o mundo de hoje. O Estado é laico. As pessoas guiam os seus destinos. Deus não pode ser culpado por uma guerra, por exemplo. Não vejo nisso nenhuma expressão da vontade divina, nem como punição.
CC: O fato de o senhor ter criticado a expansão do movimento evangélico no País também foi destacada?
RG:
 Sim. Eu fiz um contraponto à tese de que o Brasil ficará melhor com o crescimento da comunidade evangélica. Não acho que é bem assim. Critica-se muito a Europa pelo fato de as igrejas de lá estarem vazias, mas eu não vejo isso como um sinal de decadência. Ao contrário, igreja vazia pode ser sinal do cumprimento de preceitos do protestantismo se os cidadãos estão mais engajados com suas comunidades, dedicados às suas famílias, preocupados com os direitos humanos, vivendo os preceitos do cristianismo no cotidiano. Eu critico essa visão infantilizadora da vida, na qual um evangélico precisa da igreja para tudo e Deus é responsável por tudo o que acontece.
CC: O senhor se arrepende de ter concedido aquela entrevista à CartaCapital?
RG:
 De maneira alguma. O repórter Gerson Freitas Jr. até conversou comigo, preocupado com a reação que as minhas declarações poderia causar na comunidade evangélica. Mas a entrevista foi excelente para distinguir algumas coisas. Nem todos os evangélicos pensam como esses grupos midiáticos que confundem preceitos religiosos com ordenamento jurídico e querem impor sua vontade a todos. Eu já esperava alguma reação, só não sabia que viria com tanta virulência. Um evangélico chegou a dizer, pelo Twitter, que se pudesse arrancaria a minha cabeça. É como se vivêssemos nos tempos da Inquisição. Recebi inúmeros e-mails com ofensas e mensagens de ódio. Não sei precisar quantos, porque fui deletando na medida em que chegavam à caixa postal. Também surgiram centenas de textos me satanizando em blogs, sites e redes sociais.
CC: E entre os fiéis da sua igreja? Houve algum constrangimento?
RG:
 Alguns, influenciados pelo bafafá na internet, vieram me questionar. Então fiz questão de dar uma satisfação à minha comunidade. Após discursar, acabei aplaudido de pé, fiquei até meio constrangido diante daquela manifestação de apoio.
No Dia 24/05/2011 Gondim publicou uma carta Aberta em seu site:


Minha carta aberta

Ricardo Gondim
Minhas coragens não tão corajosas
Tornei-me alvo de todos os crivos. Depois de devidamente rotulado, sinto-me dissecado, espiritual, moral e psicanaliticamente. Pessoas que não me veem há décadas, se sentem com liberdade de diagnosticar o que “vem acontecendo com o Gondim”. Não há como negar como me sinto incômodo com achômetros.
Faltam-me argumentos. Como explicar que não perdi a fé, que não apostatei, que não estou na ladeira do inferno e que não sou um Belzebu? Diante de juízos subjetivos, melhor calar. Não vale sequer lembrar que a tarefa de separar trigo e joio, sempre delicada, Deus reservou aos anjos e, ainda assim, para o fim dos tempos. Como justificar-me diante da presunção de que não há outro caminho para a espiritualidade que não seja o pacotão doutrinário, que os evangélicos se consideram legítimos guardiões?
Um rapaz de apenas 24 anos mandou-me uma mensagem insolente, mal educada. Notei que ele era apenas dois anos mais velho que o Pedro, meu filho. A princípio, meu estômago embrulhou; depois, uma leve taquicardia fez meu coração perder o ritmo. Logo, porém, pensei no futuro do jovem. Onde ele estará com a minha idade? Acalmei. E supliquei a Deus por sua alma.
Os dias são bicudos. Mas não vou fragilizar-me diante de algozes, ainda noviços na arte de difamar e enxovalhar. Não darei o privilégio de verem as lágrimas que derramo por escolher um caminho acidentado. Meus soluços, conhecem Deus, meu travesseiro e minha mulher. Permanecerei altivo em minhas colocações. Não, não me considero uma encarnação de Quixote. Minha altivez esconde o homem claudicante, fraco mesmo. Mas, à minha fraqueza, fiquem certos senhores e senhoras da reta doutrina, vocês nunca terão o privilégio de desfrutar.
Estou consciente de que devo explicações. Entretanto, antes de explicar-me, acredito que eu tenho que dar satisfações. Mas, dar satisfações a quem? Primeiro, à minha própria consciência. Devo trancar a porta do banheiro e, sozinho, olhar o que me espreita de dentro do espelho, e perguntar: “Aonde você quer chegar, cara?”. Beirando os 60, eu deveria já preparar-me para uma aposentadoria tranquila (eu sei que alguns torcem por isso). "Por que o risco de posicionar-se no que só traz prejuízo pessoal? Por que deixar as costas à mercê de quem maneja bem os punhais?". Respondo ao velhote que mira os meus olhos de dentro do espelho: “Faço o que faço pelo simples fato de querer ser coerente e honesto comigo mesmo e com Deus, que ergueu um tabernáculo em meu coração”.
Sei que é inútil o que vou dizer. Mesmo assim digo: Não desejo holofotes; eu já os tive. Não surfo no oportunismo midiático, em busca dos prosaicos quinze minutos de fama; eu sei azeitar um discurso pequeno-burguês e ganhar o favor de quem patrocina aventuras caríssimas na televisão. Conheço bem os truques do peleguismo religioso. Caminho nos corredores, sacristias e bastidores do meio desde a adolescência.  Não consigo mais respirar esse ar viciado.
Por que falar em direitos civis de homossexuais? Pelo simples fato lembrar-me de Niemöller, o pastor luterano que bem expressou a passividade de sua geração quando a justiça foi pisoteada pelos nazistas: "Quando vieram atrás dos judeus, calei-me, pois não era um deles; quando vieram prender os comunistas, silenciei, eis que não era comunista; quando vieram em busca dos sindicalistas, calei-me, pois eu não era sindicalista; depois, vieram me prender, não havia mais ninguém para protestar e ninguém disse nada".
Não levanto a bandeira homossexual. Ela não é minha, eu não sou homossexual. Levando o estandarte do direito. Ele diz respeito não só aos homossexuais, mas aos religiosos, aos ateus, aos ciganos, aos deficientes. Quando a lei protege um segmento da sociedade, acaba por alcançar os que não fazem parte daquele segmento. Por que insisto em fazê-lo? Porque acredito que Jesus, o meu senhor e salvador, o faria.
Sim, concordo, tenho que dar explicações. Mas a quem? Devo explicações aos que acompanham as mudanças milimétricas que venho fazendo ao longo dos anos; pessoas que entendem as articulações que brotam de meus neurônios racionais e de minhas entranhas espirituais. Tenho certeza que elas se surpreenderiam se eu respondesse qualquer coisa diferente do que veio na entrevista. Prego todos os domingos e disponibilizo as mensagens na www.tvbetesda.com.br . Escrevo em um site/blog www.ricardogondim.com.br . Publiquei diversos livros. Meus pensamentos estão espalhados por aí. Meus parceiros não se assustaram com nada do que eu disse à Carta Capital. Pelo contrário, celebraram a oportunidade que tivemos de comunicar os valores do reino para outros que não fazem parte do movimento evangélico.
Por último, um hábil escritor sugeriu que eu estou em crise de fé. Eu sei que ele confunde fé com a aceitação da doutrina calvinista. Devo responder-lhe que tomo sua insinuação como insulto, mero xingamento.  Reconheço, igualmente, que os rótulos de estar alinhando ao teísmo aberto, de ser liberal, humanista, ateu, para mim, não passam de simplificações de quem desejava calar-me. Alguns intuíram que seus discursos já não se sustentam diante da realidade concreta das pessoas, por isso, buscam desqualificar-me. Deixo claro: não retrocederei, mesmo xingado. Não há como voltar; puxei um novelo de significados e sentidos e estou fascinado com os fios. Cada nova descoberta me leva para mais perto de mim, do meu próximo e de Deus. Agora vou até o fim.

sábado, 14 de maio de 2011

Especial Hillsong Church

Escândalos e Mentiras dos movimentos de Reversão Sexual na Austrália.
Referência no louvor contemporâneo, influenciando ministérios de louvor em todo o mundo e no Brasil alguns como Diante do Trono e Aline Barros a Hillsong Church, a mais poderosa da Associação Australiana das Assembleias de Deus, famosa por canções como Shout to the Lord (Aclame ao Senhor), é acusada de ter se transformado em um dos maiores impérios financeiro-religiosos do mundo.
As denúncias de abusos e escândalos parecem não ter fim. A começar pela administração daquilo que o ministério fatura. Se por aqui há um tremendo clamor por causa de irregularidades com alguns milhares de dólares, imagine lá, onde o Hillsong Church declara ter faturado no ano passado mais de US$ 70 milhões, mas usado apenas 2 milhões para os trabalhos sociais, "principal destinação de suas entradas".
Um resumo desses escândalos financeiros foi feito nesse vídeo no you tube


Em 2008, o Hillsong ministério de louvor convidou o pastor Michael Guglielmucci, pastor de jovens da Igreja Planet Shakers, para participar da gravação de seu álbum This is Our God (Este é o Nosso Deus). Guglielmucci dizia sofrer de câncer terminal desde 2006 e causou enorme comoção ao aparecer cantando a música The Healer (Aquele que Cura) com um tubo de oxigênio no nariz. Em seguida, porém, não aguentando uma crise de consciência, ele revelou a verdade: “Não tenho nenhum câncer. Forjei a história e enganei até minha esposa e família para encobrir minha verdadeira doença: sou viciado em pornografia. Esse problema, sim, abalou minha saúde e me debilitou emocionalmente”. Caso semelhante também aconteceu aqui no Brasil com o ex ministro de louvor Davi Silva (do ministério Casa de Davi) que ficou famoso ao contar em um congresso da Igreja Batista da Lagoinha que teria sido curado da Síndrome de Down. Ano passado Davi Silva veio a público dizer que não nasceu com Síndrome de Down e que todas as manifestações de um suposto anjo lhe tocando durante suas ministrações com o pastor Mike Shea eram mentiras.


Mas não são esses escândalos que vamos focar nesse post, mas os escândalos envolvendo a "Cura de Homossexuais".

Frank Houston
Talvez o maior escândalo nessa área seja o que envolveu o nome do fundador da Hillsong Church.
Frank Houston é pai do atual pastor da Hillsong Austrália, Brian Houston e deixou todos os cargos da igreja após ter sido revelado que abusava sexualmente de meninos menores de idade que participavam dos programas que prometiam curar gays de sua igreja.
Ele usava o abuso sexual como uma de suas técnicas de converter gays, segundo Peter Laughton uma de suas vítimas.  
"Minhas sessões de aconselhamento... nada mais eram do que o abuso sexual disfarçado sob a forma da necessidade de amor de um pai e disciplina  ", disse Peter.  
"Através de minha ingenuidade, eu suportei as agressões nuas, as eternas carícias no bumbum e as masturbações com garrafas, entre outras coisas. Eu olho para ele agora e penso, Deus, eu era muito ingênuo para cair nessa. "

O pai de Brian, o ex-ministro Frank Houston, confessou ser um pedófilo. Descobrir que seu pai tinha abusado de uma criança segundo Brian foi  "como os jatos voando em direção às torres gêmeas da minha alma  ". Tratava-se, compreensivelmente, uma das mais difíceis questões que ele já teve de lidar. "Basicamente, eu recebi uma reclamação, por isso eu confrontei o meu pai e ele admitiu ."  Brian retirou seu pai de todas as funções na igreja, mas não do contato com a polícia na Nova Zelândia, porque a vítima tinha idade suficiente para fazer isso mesmo, entrega-lo a polícia.  
Brian disse que foi sincero com a sua congregação, embora tenha sido criticado por não agir rápido o suficiente e por ter tentado abafar o escândalo.
"Eu disse a nossa igreja que tinha acontecido (vários meses depois que ele descobriu), mas logo que descobri eu disse aos presbíteros da igreja e das Assembleias de Deus  ", disse Houston. "Para minha congregação, quando eu lhes disse, eu usei palavras como predador e abuso sexual e assim por diante. Eu não tentei escondê-lo ." É uma questão que parece improvável que vá ser esquecida, e Brian sabe que, uma vez que que a alegação inicial foi tornada pública, outras supostas vítimas se apresentariam. E foi o que aconteceu, outra suposta vítima de seu pai, também do sexo masculino, não ficou satisfeita com o tratamento que recebeu por parte da igreja e está considerando uma ação civil.
  

Anthony Venn Brown 
 
Já Anthony Venn Brown é agora um ex-ex gay como nós!
Venn Brown foi missionário, fundou diversas Assembleias de Deus  pelo mundo antes de ir para Sydney com a família no início de 1980 e criar o  "Every Believer Evangelism."  Venn-Brown tornou-se um pregador popular em todas as principais igrejas da Assembleia de Deus na Austrália , incluindo a Hillsong Church.
Em 1990 ele se tornou o primeiro pentecostal a ser nomeado para o "Comitê de Lausanne Pelo Evangelismo Mundial" na Austrália .
Venn-Brown renunciou ao cargo de ministro em 1991, depois que assumiu ter dito um relacionamento com outro homem. Em 2004 ele publicou sua auto biografia,  "A Life of Unlearning - Coming out of the church, One Man's Struggle." O livro detalhou sua luta para conciliar a sua homossexualidade com suas convicções cristãs. Ele venceu o "Sydney Gay and Lesbian Business Association Literary award" em 2004.
A edição revista, "A Life of Unlearning - a Journey to Find the Truth (Uma Vida de Esquecimento - uma jornada para encontrar a verdade)  " foi publicado em 2007.
Preferindo ser conhecido como um embaixador, em vez de ativista gay, Venn-Brown agora é um representante e defensor dos gays e lésbicas. Ele busca criar um diálogo informado, inteligente mas respeitoso sobre as questões da homossexualidade dentro da comunidade cristã e, particularmente pentecostal.
Anthony não sente que ele vai voltar a pregar, segundo ele, "talvez daqui 30 anos alguém que é gay ou lésbica seja permitido ministrar nas Assembléias de Deus. Espero eu estar lá para ver, mas eu sinto que eu tive o meu ministério. Quando voltei a Deus eu me senti como se eu tivesse a essência do que se tratava. O que eu tenho agora é real. Eu aprendi a viver sem julgamentos, para viver com integridade e não tive isso como um pregador  "
Anthony Venn-Brown foi votado como um dos 25 gays e lésbicas australianos mais influentes em 2007 e 2009 e foi um dos oradores do "Evangelical Network Conference", no Arizona.
Anthony fundou o Freedom 2b um site que auxilia Gays cristãos a se aceitarem e manterem sua fé, como o próprio site se descreve:
"Freedom 2b é uma rede LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros)  de pessoas pentecostais, carismáticas e de origens evangélicas.
Freedom 2b é um não-julgamento, sem nenhuma agenda local (tratamentos de reversão), estege seguro que atende pessoas em seu caminho para a reconciliação de sua fé e/ou sua sexualidade.
Tradicionalmente pentecostais, carismáticos e grupos evangélicos têm sido mal informados sobre a orientação sexual e mantido crenças ultrapassadas sobre a homossexualidade. Esta falta de conhecimento tem causado muito sofrimento desnecessário, não só para as pessoas LGBT, mas também sua família e amigos. Posições anti-gay não tem refletido o exemplo de Jesus Cristo, ou como a igreja cristã deve responder. Ao invés de igrejas demonstrando amor e aceitação, as pessoas LGBT, na sua maioria com experiência de julgamento, condenação e rejeição.
O termo "cristão homossexual" é relativamente novo, mas agora há muitos milhares de indivíduos, líderes de igrejas e congregações inteiras que vieram para uma compreensão mais esclarecida da sexualidade. A investigação científica e um profundo olhar para as escrituras tem ajudado as pessoas perceberem que homossexualidade não é uma doença para ser curada ou um pecado a ser perdoado. Muitos têm resolvido o problema da sua orientação sexual e mantiveram sua fé cristã. Outros resolveram sua sexualidade, mas ainda tem problemas de fé para resolver. Fredom 2b acolhe todos.
Se você deixou a igreja ou ainda estão lá, a Fredom 2b é o seu lugar para contato, informações, encontrar apoio e diálogo com pessoas que entendem sua jornada.
Fredom 2b não é uma organização cristã, como tal, mas uma rede de pessoas de origens semelhantes."

Anthony conta sua história nessa entrevista:

(Veja as outras partes da entrevista nos relacionados)

Mercy Ministries

 A Mercy Ministries é uma "casa de recuperação" para lésbicas mantida pela Hillsong Church. Eles insistem que as organizações são totalmente independentes, apesar de compartilharem membros em comum do conselho e diretores. Inclusive  Mark e Darlene Zschech,já foram diretores do Mercy.
Muitas lésbicas vem denunciando os abusos que sofreram enquato estavam "internadas" e se assumindo agora "ex-ex gays". 
Ex-moradoras afirmam que "os contratos de separação, a proibição de contato físico e os ensinamentos de como ser um  "ex-gays  "  são tentativas do Mercy Ministery para acabar com o lesbianismo em seu rebanho  ", relata Ruth Pollard. Outra antiga moradora, que não quis ser identificada, disse: "As meninas foram solicitados no formulário de inscrição, bem como em uma entrevista por telefone, se elas já tiveram relações homossexuais ou bissexuais, eles perguntaram se eu tinha.
Na casa, as moradoras foram impedidas de ter qualquer tipo de contato físico, sem abraços de conforto, sem ombro para chorar, e apesar de existirem três jovens mulheres para cada quarto, elas não foram autorizadas a trocar de roupa, se outra pessoa estava no quarto, disse ela.
Apesar disso tudo o Mercy Ministries nega que executa um programa "ex-gay" e a Hillsong parou de funcionar o seu programa "ex-gay" para homens, chamado Living Waters, apesar de ambas as organizações permaneçam firmemente conservadoras, anti-aborto e anti-gay.
Atualmente a Mercy Ministery mudou o nome para A Girl Called Hope.

A verdade é que tanto o Mercy Ministries (A Girl Called Hope), o Living Waters, a Exodus Internacional ou outros programas simlilares no Brasil tem negado promover "tratamentos de reversão" por causa da ilegalidade da prática, condenável até pela OMC e no caso do Brasil pela Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia. Mas na prática eles continuam desenvolvendo seus "tratamentos de Cura".

Penny Davis

Uma das grandes defensoras de que o Mercy Ministries não funciona é Penny Davis, ex funcionária da Hillsong Church ela passou pelo tratamento de reversão da casa de recuperação, mas não conseguiu "se curar." Minha jornada levou a este momento, onde estou como uma mulher confiante de que está sendo ordenada e passar a ser uma lésbica  ", disse ela ao Sydney Star Observer ao ser ordenada pastora na Igreja da Comunidade Metropolitana, uma igreja inclusiva que atua em mais de 20 países desde 1969. Um vídeo no Youtube mostra algumas denúncias de meninas ex internas do Mercy Ministries.


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